Em 47 cidades de Alagoas, nenhum bebê nasceu onde a mãe mora em 2026
Por Redação
Em 47 dos 102 municípios de Alagoas, nenhuma criança filha de mãe residente nasceu dentro da própria cidade entre janeiro e maio de 2026. Nesses lugares, todos os 2.565 bebês registrados no período vieram ao mundo em outro município, a maior parte a dezenas de quilômetros de casa.
Os dados constam de levantamento realizado pela reportagem nos microdados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, que comparou a cidade onde a mãe mora com a cidade onde o parto aconteceu.
O quadro não é passageiro. Em 29 municípios, o índice de nascimentos fora da cidade foi de 100% em todos os períodos analisados: o primeiro semestre de 2024, o primeiro semestre de 2025 e a prévia de 2026. A lista vai do Sertão ao Litoral Norte e inclui Poço das Trincheiras, Olivença, Carneiros, Igaci, Estrela de Alagoas, Igreja Nova, Passo de Camaragibe, Japaratinga, São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras e Santana do Mundaú, entre outras.
Dez cidades seguram os próprios partos
Apenas dez municípios registram a maioria dos nascimentos de suas moradoras dentro do próprio território: Maceió, Arapiraca, Santana do Ipanema, São Miguel dos Campos, Porto Calvo, Penedo, Palmeira dos Índios, Delmiro Gouveia, União dos Palmares e Coruripe. Nas outras 92 cidades, mais da metade das mães teve o filho fora. Em cerca de 70 delas, esse índice passa de 90%.
O mapa dos polos
No Sertão, quase tudo converge para Santana do Ipanema, que recebeu 1.365 nascimentos de mães de 49 municípios entre janeiro e maio, mais do que Arapiraca (1.273) no mesmo período. Dos 83 bebês de mães de Poço das Trincheiras, 81 nasceram em Santana. Em Olho d'Água das Flores, os 137 nascimentos ocorreram fora, 118 deles em Santana. Mais a oeste, Delmiro Gouveia recebeu 426 nascimentos de outras 12 cidades; em Pariconha, 69 dos 88 bebês nasceram lá.
No Agreste, os polos são Arapiraca e Palmeira dos Índios, esta com 514 nascimentos de mães de 32 municípios. As mães de Igaci, com 134 nascimentos no período, dividiram-se entre Palmeira, Santana e Arapiraca. Girau do Ponciano, com 225 nascimentos, teve 95,6% dos bebês nascidos fora, a maioria em Arapiraca.
No Norte, o eixo é Porto Calvo (485 nascimentos de 16 cidades) e União dos Palmares (381 de 15), com Maceió como alternativa. Em Passo de Camaragibe, 54 dos 76 nascimentos aconteceram em Porto Calvo e outros 20 na capital. No Baixo São Francisco, Penedo recebeu 365 nascimentos de 22 municípios.
Na região metropolitana, o destino é a capital. Satuba (109 nascimentos), Paripueira (95), Santa Luzia do Norte (47) e Coqueiro Seco (20) tiveram 100% dos bebês nascidos em Maceió. Em Rio Largo, dos 430 nascimentos de mães do município até maio, 416 ocorreram fora, 413 deles na capital.
Além da divisa
Para parte das alagoanas, a distância até um hospital do próprio estado é maior do que até o vizinho. Em 2024, 334 nascimentos de mães residentes em Alagoas ocorreram em outras unidades da Federação. Em 2025, o número subiu para 367, com destaque para Palmares (PE), com 85; Paulo Afonso (BA), com 75; e Propriá (SE), com 72. Entre janeiro e maio de 2026, já são 139. Em Porto Real do Colégio, 12 dos 106 bebês nascidos no período vieram ao mundo em Propriá.
Governo admite o deslocamento
O próprio governo estadual reconhece o problema. Em 2025, ao divulgar os resultados das maternidades dos hospitais regionais de União dos Palmares, Porto Calvo e Delmiro Gouveia, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) afirmou que as unidades servem para fortalecer a regionalização e evitar que gestantes de baixo risco precisem viajar até Maceió para dar à luz. A rede citada pela pasta inclui ainda serviços contratualizados pelo SUS em Penedo, Santana do Ipanema, Palmeira dos Índios e Arapiraca, e a Sesau informa que as gestantes são vinculadas, durante o pré-natal, à unidade responsável pelo parto.
Os números mostram que as maternidades regionais funcionam como polos em suas áreas, mas não alteraram o retrato estadual: o índice de nascimentos fora do município oscilou de 48,4% em 2024 para 48,9% em 2025 e está em 48,5% na prévia de 2026.