“Glicose em 300 e mandavam voltar para casa”: mãe relata peregrinação entre maternidades em Alagoas

24 de setembro de 2026 às 07:30
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Rafaela Vitório afirma que procurou atendimento três vezes em Penedo antes de ser encaminhada para a Santa Mônica, em Maceió. - Foto: Frame/Francês News

Durante três semanas, Rafaela Vitório, de 32 anos, procurou atendimento na maternidade de Penedo, no Baixo São Francisco de Alagoas. Mãe de três filhos, ela afirma que deu entrada três vezes na unidade durante uma gestação de risco, mas recebeu a mesma orientação: voltar para casa.

Penedense, Rafaela relatou ao Francês News que apresentava diabetes e chegou a registrar taxas de glicose entre 280 e 300 mg/dL. Segundo ela, apesar dos resultados, não foi mantida em observação.

“Avaliavam, furavam o dedo, olhavam a glicose e diziam: ‘Sua glicose está ótima’. Duzentos e oitenta, estava ótima. Trezentos, estava ótima”, contou.

De acordo com Rafaela, o atendimento se limitava à verificação dos batimentos cardíacos do bebê e a perguntas sobre seu histórico de saúde. Ela afirma que não recebeu medicação para controlar a glicemia nem teve acompanhamento imediato de um médico especializado em gestação de alto risco.

“Imagine você ir para uma maternidade em um domingo e ter que esperar até quarta-feira para ser atendida pelo médico de alto risco. Não tem como”, declarou.

Transferência para Maceió

Após as sucessivas idas à maternidade, Rafaela foi encaminhada para a Maternidade Escola Santa Mônica, em Maceió. Segundo ela, a equipe de Penedo reconheceu que a unidade não possuía os recursos necessários para acompanhar o caso.

“Disseram: ‘Vou encaminhar você para a Santa Mônica porque lá terá um acompanhamento melhor. Aqui não temos recursos para isso’”, relatou.

A transferência confirma, na experiência de Rafaela, a dependência identificada em levantamento do Francês News sobre os nascimentos em Alagoas. Em 2025, 22.680 dos 46.398 bebês de mães residentes no estado nasceram fora do município onde elas moravam, proporção de 48,9%.

Somente Maceió recebeu 7.034 nascimentos de bebês cujas mães residiam em outros municípios naquele ano.

A Santa Mônica é referência estadual para gestação de alto risco. A centralização, no entanto, também aumenta a pressão sobre a unidade, que recebe pacientes encaminhadas de diferentes regiões de Alagoas.

Gestantes dormindo em cadeiras

Rafaela conta que encontrou os corredores e a recepção da Santa Mônica lotados quando chegou à maternidade.

“As gestantes já estavam ocupando as cadeiras da recepção para dormir. Não tinha leito. Não tinha cadeira para acompanhante nem lugar para a gestante ficar”, afirmou.

Segundo o depoimento, acompanhantes precisaram deixar os assentos para que as pacientes pudessem passar a noite em cadeiras de escritório. Rafaela diz que somente conseguiu uma poltrona depois que imagens da situação começaram a circular.

“No domingo conseguiram um leito para eu subir. Eu achava que iria para um quarto normal. Fui para uma cama, mas no corredor também”, contou.

Ela classificou a experiência como traumatizante. “Você fica apreensiva porque, a qualquer momento, pode perder seu bebê.”

Morte de bebê também é relatada

Rafaela afirmou que foi transferida de Penedo para Maceió com outra gestante. Segundo seu relato, a mulher permaneceu inicialmente nas cadeiras da recepção, mesmo sentindo dores, e posteriormente perdeu o bebê.

Ela também alega que houve demora para a realização do procedimento de retirada do feto.

A denúncia de Rafaela contrasta com informações divulgadas anteriormente pelo Município de Penedo. Em novembro de 2025, a Prefeitura informou que a maternidade da Santa Casa, instalada no Hospital Regional, possuía seis obstetras em regime de plantão durante 24 horas, nos sete dias da semana.

O espaço permanece aberto para manifestação da Santa Casa de Misericórdia de Penedo, da Maternidade Escola Santa Mônica, da Secretaria Municipal de Saúde de Penedo e da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas.