Cara a cara entre golpista e presidente, acusação de autogolpe, porta quebrada por tanque: os detalhes da tentativa frustrada de golpe na Bolívia

27 de junho de 2024 às 09:17
Mundo

Reprodução

Em pouco menos de quatro horas, a Bolívia viveu um dos episódios mais tensos de sua já turbulenta história política recente.

Em uma tentativa frustrada de golpe, o ex-comandante do Exército do país Juan José Zúñiga e soldados aliados invadiram o Palácio Quemado, antiga sede do governo, mas acabaram desmobilizados. Zúñiga e outro comandante terminaram presos.

Veja, abaixo, alguns detalhes da tentativa de golpe que marcaram o episódio:

'Cara a cara' com o presidente

Na tarde de quarta-feira, tanques do Exército e militares armados, comandados por Zúñiga, chegaram a invadir o Palácio Quemado, a antiga sede do governo que ainda funciona para atos protocolares.

Logo após a invasão, o presidente boliviano, Luis Arce, foi pessoalmente até o local -- ele estava no prédio ao lado, onde hoje funciona a sede do governo.

Ao chegar, o presidente deu Zúñiga, e os dois protagonizaram uma discussão registrada por pessoas que estavam no local. Na discussão, os dois gritam, e o presidente ordenou que o ex-comandante do Exército desmobilizasse as tropas. Zúñiga não responde.

'Autogolpe'

O ex-comandante do Exército acabou preso após o episódio e será algo de uma investigação da Procuradoria-geral da Bolívia.

No entanto, ao ser levado por policiais do palácio, Zúñiga parou em frente à imprensa e fez uma declaração surpreendente: acusou o presidente Luis Arce de ter orquestrado um autogolpe para ganhar popuridade.

Segundo o ex-comandante do Exército, Arce lhe pediu no domingo para que o general tentasse um golpe. Ao tentar defender seu país, o atual presidente ganharia popularidade. Seria um autogolpe, afirmou Zúñiga, visando as eleições de 2025, quando Luis Arce concorrerá pelo poder com seu ex-aliado Evo Morales.

Evo Morales, protagonista

Mesmo fora do poder e impedido de concorrer à presidência, o ex-presidente Evo Morales foi uma das figuras centrais da tentativa de golpe.

No dia anterior, Zúñiga havia sido destituído do cargo de comandante do Exército após fazer ameaças a Evo Morales -- ele afirmou que predenderia Morales caso o ex-presidente volte ao poder.

Arce saiu em defesa de Morales mesmo sendo atualmente rival do ex-presidente. Os dois, antigos aliados, romperam no ano passado após o ex-presidente anunciar a intenção de se candidatar novamente à presidência do país nas eleições de 2025.

Atualmente, Morales tenta derrubar uma decisão da Justiça que impede sua candidatura, com base no argumento de que um cidadão não pode ocupar mais de duas vezes um cargo público.

Mesmo rivais, Arce e Morales fazem parte do mesmo movimento político.

Tanque 'atropelou' porta de palácio

Veja momento em que tanque avança sobre porta de palácio presidencial na Bolívia em 26 de junho de 2024. — Foto: Reprodução/Globonews

Outro detalhe que chamou a atenção na tentativa de golpe foi a forma que os militares rebeldes escolheram para entrar no palácio: batendo um tanque na porta de entrada do palácio.

O tanque tentou algumas vezes forçar a porta. Após conseguir abri-la, militares então se aglomeraram na entrada para tentar chegar ao interior do palácio.

Desmobilização

Após cerca de quatro horas de tensões que incluíram um cara a cara entre o presidente, Luis Arce, e Zúñiga (leia mais abaixo), o movimento foi desmobilizado por ordem de Arce, e os militares que participaram da tentativa de golpe deixaram o local, cercados por soldados que se mantiveram fiéis ao governo.

Em pronunciamento, Luis Arce destituiu também os outros dois comandantes da Marinha e da Aeronáutica, nomeou novos chefes para as três forças e ordenou a desmobilização das tropas. A Procuradoria-geral da Bolívia anunciou que abriu uma investigação contra Zuñiga e os militares que participaram da tentativa de golpe.