PF já investigava corrupção na Saúde de Alagoas desde o governo Renan Filho; operações atravessam três gestões
Francês News
A Polícia Federal começou a atingir diretamente a estrutura da Saúde estadual de Alagoas durante o primeiro governo de Renan Filho (MDB). A primeira grande operação federal voltada a contratos da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) foi a Operação Correlatos, deflagrada em agosto de 2017, quando o atual senador e candidato ao Governo de Alagoas comandava o Estado.
De lá para cá, outras investigações alcançaram a pasta e seus gestores. O histórico inclui suspeitas de fraudes em licitações, contratos de órteses e próteses, desvios de recursos públicos, lavagem de dinheiro e, mais recentemente, denúncias envolvendo o uso da estrutura do SUS para obtenção de vantagens políticas.
A sequência de operações não significa que todos os fatos investigados tenham a mesma origem ou que exista uma única organização criminosa atravessando os diferentes casos. São investigações distintas, conduzidas em períodos diferentes e com objetos específicos.
Correlatos: a primeira grande ofensiva federal
Deflagrada em 8 de agosto de 2017 pela PF e pela Controladoria-Geral da União (CGU), a Operação Correlatos investigou suspeitas de fraudes em compras da Sesau realizadas entre 2015 e 2016, justamente na primeira metade do governo Renan Filho.
A investigação apontava para o possível fracionamento de compras para manter contratos abaixo de R$ 8 mil, evitando a modalidade de licitação exigida pela legislação da época. Também foram identificadas suspeitas de simulação de pesquisas de preços e vínculos familiares entre proprietários de empresas que apareciam formalmente como concorrentes.
A dimensão financeira chamou atenção. Segundo a CGU, as contratações por dispensa de valor entre janeiro de 2010 e julho de 2016 somavam pelo menos R$ 243 milhões, dos quais mais de R$ 176 milhões tinham recursos do SUS.
A então secretária de Saúde, Rozangela Wyszomirska, foi conduzida coercitivamente para prestar depoimento. A operação cumpriu mandados em Alagoas, Pernambuco, Sergipe e Distrito Federal.
Florence colocou familiares de aliados políticos no centro da investigação
Dois anos depois, em dezembro de 2019, a Operação Florence – Dama da Lâmpada voltou a colocar a Sesau no centro de uma grande investigação federal.
Desta vez, a PF, a CGU e o Ministério Público Federal investigaram suspeitas de fraudes e desvios em contratos relacionados a órteses, próteses e materiais especiais (OPME). A investigação apontava valores de aproximadamente R$ 30 milhões.
Entre os presos estavam Lívia Barbosa, filha do então vice-governador Luciano Barbosa, e Pedro da Silva Margallo, marido dela. Os dois eram sócios da LP Ortopedia, empresa que, segundo as investigações divulgadas à época, havia prestado serviços para a Sesau.
Também foram presos ou investigados servidores e dirigentes de unidades hospitalares. A operação cumpriu 32 mandados de busca e apreensão, nove de prisão preventiva e sete de prisão temporária.
Naquele momento, reportagens da imprensa alagoana classificaram Florence como a segunda grande operação envolvendo a Sesau durante o governo Renan Filho.
Da gestão Renan Filho às investigações no governo Paulo Dantas
A mudança de governo não encerrou as investigações sobre a Saúde estadual.
Em dezembro de 2025, já durante a gestão de Paulo Dantas (MDB), a Polícia Federal, a CGU, a Receita Federal e o Ministério Público Federal deflagraram a Operação Estágio IV para investigar suspeitas de peculato, organização criminosa e lavagem de capitais envolvendo recursos do Fundo Estadual de Saúde.
Segundo a investigação divulgada pelos órgãos federais, o caso envolvia contratos firmados entre 2023 e 2025 e valores acima de R$ 100 milhões. O então secretário Gustavo Pontes negou irregularidades e afirmou que sua gestão era transparente.
O portal Francês News publicou durante todo o mês de julho matérias baseadas no relatório da Polícia Federal sobre a operação Estágio IV.
Mais recentemente, em agosto de 2026, a Operação Ruptura levou a PF novamente ao interior de Alagoas. A investigação passou a apurar suspeitas de utilização da estrutura da saúde pública para favorecer eleitores e obter apoio político, com mandados em Delmiro Gouveia, Olho d'Água do Casado e Inhapi.
Assim, em quase uma década, a Saúde estadual passou de investigações sobre compras e dispensas de licitação para apurações envolvendo OPME, contratos milionários, supostos desvios e utilização política de serviços do SUS.