A Comissão de Relações Exteriores do Senado promove na manhã desta quarta-feira (18) audiência pública com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. O encontro, marcado para as 10h, tem como objetivo discutir a atuação do Brasil diante da escalada do conflito no Oriente Médio e as medidas de assistência consular aos brasileiros que vivem ou estão em trânsito na região.
O convite ao chanceler foi feito para que o Itamaraty apresente informações sobre a condução da política externa brasileira e os impactos da crise sobre o comércio internacional, os mercados de energia e as cadeias produtivas globais. A reunião será interativa, com possibilidade de participação popular por meio do telefone da Ouvidoria do Senado ou do Portal e-Cidadania.
Assistência consular
De acordo com dados do governo federal, mais de 4 mil brasileiros já deixaram os Emirados Árabes Unidos por via aérea desde o início do conflito, em 28 de fevereiro. Os voos comerciais na rota Dubai–São Paulo e Dubai–Rio de Janeiro foram restabelecidos, mas ainda sofrem cancelamentos pontuais por razões de segurança.
No Catar, a Qatar Airways prevê novos voos com destino a São Paulo nos dias 18, 20 e 22 de março. O Itamaraty também organiza transporte terrestre seguro de brasileiros do Bahrein, Catar e Kuwait para o Aeroporto Internacional de Riade, na Arábia Saudita. Na segunda-feira (16), o primeiro grupo de sete brasileiras deixou o Bahrein por terra com apoio da embaixada.
O Ministério das Relações Exteriores mantém alerta consular recomendando que cidadãos evitem viagens a 12 países da região, entre eles Irã, Israel, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Líbano. Para os que já se encontram nesses locais, a orientação é seguir rigorosamente as instruções das autoridades locais e manter documentos de viagem com pelo menos seis meses de validade.
Preocupações econômicas
A crise também acendeu alerta no setor produtivo brasileiro. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores, destacou que o Brasil exportou cerca de US$ 12,4 bilhões em produtos agrícolas para países do Oriente Médio em 2025, o equivalente a 7,4% das exportações brasileiras. Desse total, US$ 2,9 bilhões tiveram como destino o Irã, principal foco do conflito.
A região absorve 29% das exportações brasileiras de carne de frango (1,5 milhão de toneladas) e 31,5% do milho (12,9 milhões de toneladas). O Irã foi o principal comprador de milho do Brasil em 2025, adquirindo cerca de 9 milhões de toneladas – 22% de todo o milho exportado pelo país naquele ano.
Para a senadora, há risco de impactos sobre energia e fertilizantes. O Estreito de Ormuz, atualmente bloqueado, concentra cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e gás natural. A instabilidade na rota pode provocar desvios, aumento no custo do frete e encarecimento do seguro marítimo, elevando as despesas logísticas dos exportadores.
Além disso, 15,6% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil em 2025 vieram da região. Conflitos geopolíticos tendem a elevar o preço do petróleo e do gás natural, insumos fundamentais na produção desses fertilizantes, o que pode pressionar os custos de produção agrícola no país.
Pressão diplomática
Embaixadores de países do Golfo Pérsico procuraram o Senado pedindo atenção para os ataques registrados no Oriente Médio e para o risco de ampliação da instabilidade. Eles alertaram para ataques atribuídos ao Irã contra estruturas civis e para possíveis impactos no comércio internacional de energia e em rotas estratégicas.
Especialistas avaliam que a magnitude dos efeitos dependerá da evolução do cenário militar. Se as tensões forem rapidamente contidas, o impacto deve se limitar a volatilidade temporária nos preços de fretes, energia e insumos. Por outro lado, uma escalada prolongada pode provocar pressões mais fortes sobre custos, margens e decisões de produção no agronegócio.