Comissionados somem da campanha de Lula em Alagoas, contrariando alegação de Paulo Dantas
Por Redação
A dez dias do segundo turno, a campanha de Lula (PT) em Alagoas perdeu justamente quem deveria sustentá-la: a máquina do governo estadual. Comissionados e aliados do governador Paulo Dantas (MDB) sumiram dos atos do presidente e apagaram a militância das redes. O sumiço contraria a justificativa do próprio Dantas para deixar o cargo.
No mais recente, em Maceió, a procuradora-geral do Estado, Samya Suruagy, foi uma das poucas figuras do primeiro escalão de Dantas a dar as caras no ato do último domingo que reuniu uma multidão na orla da capital alagoana. Ela esteve acompanhada apenas da esposa, sem a presença de um grupo massivo de servidores que se faziam presentes quando ainda corria a campanha ao governo.
Nas entrelinhas, o afastamento serviu a outro propósito, segundo interlocutores: fortalecer o nome do desembargador Fábio Bittencourt e do Judiciário nas trincheiras emedebistas, em articulação com o presidente da Assembleia, Marcelo Victor (MDB). A sequência dos fatos ajuda a entender essa leitura. Com a renúncia do vice Ronaldo Lessa, o primeiro na linha sucessória seria Marcelo Victor. O deputado, porém, alegou compromissos institucionais inadiáveis entre 14 e 21 de outubro. Assim, o governo passou ao presidente do Tribunal de Justiça, que tomou posse na noite de quarta (14).
Foi exatamente nesse dia que a Assembleia, comandada por Marcelo Victor, concluiu a votação da lei que blinda a diretoria da Arsal. E foi Bittencourt, já no exercício do governo, quem a sancionou. A Lei nº 10.066 cria mandatos fixos de cinco anos para a cúpula da agência e proíbe a exoneração por mudança de governo. Na prática, o próximo governador fica impedido de trocar a direção por decisão política. No mesmo dia, o Executivo enviou outro projeto, que facilita a cessão de procuradores do Estado a outros órgãos, inclusive ao Legislativo.
Enquanto o MDB arma - ou desarma, o terreno para o governo JHC, a campanha de Lula enfrenta um problema com endereço certo. No primeiro turno, Maceió foi a única capital do Nordeste onde Flávio Bolsonaro (PL) venceu o presidente: 52,37% a 41,08% dos votos válidos. É a terceira votação presidencial seguida em que a capital destoa da região. No estado como um todo, a conta se inverte, com Lula em 54,73% contra 40,45% de Flávio, graças ao interior. Na disputa nacional, Flávio terminou à frente, com 47,04% contra 45,15%. O candidato a vice na chapa do senador é alagoano: o deputado Alfredo Gaspar (PL).
É justamente na capital que se concentra a máquina de comissionados do governo estadual, o eleitorado que sustentou a campanha de Renan Filho nas ruas. E foi essa máquina que começou a ser desmontada dias depois da apuração. Comissionados e terceirizados de várias secretarias relataram à imprensa que já tinham sido avisados de exonerações e demissões, e que a ordem vinda de cima era cortar com força. Segundo os relatos, praticamente todos haviam trabalhado sem remuneração na campanha de Renan Filho. Um terceirizado disse ter sido demitido dois dias depois da eleição.
Informações de bastidores apontam que o sumiço se deu nas redes sociais também, com servidores comissionados do Estado ignorando a campanha presidencial e apagando o material outrora publicado, fosse de Renan Filho, ou de Lula.
A lógica é menos ideológica do que parece. Sem cargo e sem governo a defender a partir de janeiro, o servidor de confiança perde o motivo para vestir a camisa do presidente numa cidade que vota majoritariamente à direita. Em Maceió, a adesão a Lula durou exatamente o tempo do contracheque.
Há quatro anos, o cenário era o oposto. Dantas foi o palanque de Lula no segundo turno, e quando o então governador acabou afastado pelo STJ em plena campanha, o petista anunciou que seguiria ao seu lado e manteve a agenda no estado.
Agora, a campanha presidencial em Maceió ficou com os estudantes. O ato de 11 de outubro, na orla, foi organizado por centros acadêmicos da Ufal, dentro da campanha nacional Vira Voto. A energia do MDB está em outra frente: a Assembleia Legislativa, onde o partido terá sozinho 15 das 27 cadeiras a partir de fevereiro.