Inteligência dos EUA vê desdolarização no Brics como arma russa

28 de março de 2025 às 07:13
Mundo

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UOL

Um levantamento feito pela comunidade de inteligência dos EUA aponta para o envolvimento do governo da Rússia no Brics como uma ameaça aos interesses americanos, principalmente no que se refere à desdolarização do comércio entre países emergentes. O documento oficial dos EUA foi publicado para mapear os riscos para o país, incluindo o crime transnacional, movimentos islâmicos, Coreia do Norte, Irã, narcotráfico e China.

Mas um dos elementos destacados é o posicionamento da Rússia, principalmente usando sua aliança com o Brics para se fortalecer.

A Rússia vê sua guerra em curso na Ucrânia como um conflito por procuração com o Ocidente. E seu objetivo de restaurar a força e a segurança russas em seu território próximo contra a percepção de invasão dos EUA e do Ocidente, aumentou os riscos de uma escalada não intencional entre a Rússia e a OTAN

Relatório da Inteligência norte-americana

"As tensões político-militares resultantes, intensificadas e prolongadas, entre Moscou e Washington, juntamente com a crescente confiança da Rússia em sua superioridade no campo de batalha e em sua base industrial de defesa, e o aumento do risco de guerra nuclear, criam urgência e complicações para os esforços dos EUA para encerrar a guerra de forma aceitável", alerta.

Segundo a avaliação de risco dos espiões americanos, independentemente de como e quando a guerra na Ucrânia termine, "as atuais tendências geopolíticas, econômicas, militares e políticas internas da Rússia ressaltam sua resiliência e sua potencial ameaça duradoura ao poder, à presença e aos interesses globais dos EUA".

Ainda segundo os norte-americanos, apesar de ter tido enormes custos militares e econômicos em sua guerra com a Ucrânia, a Rússia tem se mostrado adaptável e resistente, em parte devido ao apoio ampliado da China, do Irã e da Coreia do Norte.

"O presidente Vladimir Putin parece decidido e preparado para pagar um preço muito alto para prevalecer no que ele vê como um momento decisivo na competição estratégica da Rússia com os Estados Unidos, na história mundial e em seu legado pessoal", disse.

"A maioria dos russos continua a aceitar passivamente a guerra, e o surgimento de uma alternativa a Putin provavelmente é menos provável agora do que em qualquer outro momento de seu governo de um quarto de século", constata a inteligência americana.

Aliança com Brics

É nessa questão da resiliência que os EUA apontam para a relação estratégica de Moscou com o Brics. "Os esforços ocidentais para isolar e sancionar a Rússia aceleraram seus investimentos em parcerias alternativas e o uso de várias ferramentas de política para compensar o poder dos EUA, com o apoio e o reforço da China", disse o informe.

O relacionamento da Rússia com a China ajudou Moscou a contornar as sanções e os controles de exportação para continuar o esforço de guerra, manter um mercado forte para produtos energéticos e promover um contrapeso global aos Estados Unidos, mesmo que ao custo de uma maior vulnerabilidade à influência chinesa

Relatório da Inteligência norte-americana

"Moscou está cada vez mais disposta a ser o 'estraga-prazeres' em fóruns centrados no Ocidente, como a ONU, além de usar organizações não ocidentais como o grupo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS) para pressionar políticas como a desdolarização", constatou.

Desde que venceu a eleição, no final de 2024, o presidente Donald Trump tem feito ataques contra os planos do Brics de reduzir sua dependência ao dólar. O chefe da Casa Branca alertou que se o bloco de emergente seguir na direção de ampliar o uso de moedas locais para o comércio, serão alvo de taxas de 100% sobre seus produtos.

Para o governo americano é estratégico manter a relevância do dólar. O governo do presidente Lula, que preside o Brics em 2025, já sinalizou que vai manter o debate da desdolarização na agenda do bloco. Mas promete trabalhar de forma "técnica" e sem um conteúdo ideológico contra os EUA.

Ainda na avaliação da inteligência dos EUA, a Rússia demonstrou que pode enfrentar desafios econômicos substanciais resultantes dos drenos contínuos da guerra, da imposição de custos do Ocidente e das altas taxas de inflação e de juros — pelo menos no curto prazo —, usando soluções financeiras e de substituição de importações. Tudo isso, mantendo uma dívida baixa e investimentos contínuos na base industrial de defesa.

"A economia da Rússia continua sendo a quarta maior do mundo (com base no PIB em paridade de poder de compra)", diz. E completa: "apesar de estar praticamente isolada das cadeias de suprimentos ocidentais, a Rússia expandiu e aprofundou significativamente a cooperação em vários setores técnicos com parceiros internacionais".